#fikadika Pais e cuidadores

Dezembro para terapeutas que atendem crianças e adolescentes, é um mês de re-pensar: avaliar o trabalho realizado durante o ano, as conquistas, perdas… de conversar sobre os sintomas dos pacientes, discutir caminhos para o próximo ano e também comemorar altas.  Este balanço é realizado em parceria com os pais, em uma dinâmica que chamamos de entrevistas devolutivas.

Em plena temporada de devolutivas, me sento angustiada com a culpa que venho percebendo nos pais a cada encontro. “Ele é assim e não sei o que fazer”. “No meu tempo era diferente”. “A culpa é nossa” –  são frases que ouço com frequência. De fato, me parece que é cada vez mais difícil às famílias resolver a equação de educar sem confrontar ou entristecer os filhos.

No desejo de acolher essas queixas, encontrei amparo nesta entrevista com o professor e filósofo Mário Sergio Cortella, publicada em 12 de maio de 2017 no jornal O Estado de S. Paulo.  Na conversa, Cortella destaca a necessidade de exercer autoridade sobre os filhos e não transformar desejos em direitos. Como mãe e terapeuta, considero as palavras do professor um sopro de lucidez e libertação em tempos de pais culpados.

Boa leitura!

‘Os pais esquecem que a família não é uma democracia’, diz Mario Sergio Cortella                                  Estão criando crianças soberanas e não autônomas Foto: Ricardo Chicarelli/Estadão

 

O senhor fala que a atual geração de pais dá “toda voz” às crianças. A falta de tempo faz com que os pais optem por evitar confronto com os filhos?

A falta de tempo é uma das causas. Ela não é exclusiva, mas extremamente significativa. Afinal de contas, quando um casal inicia uma discussão, é preciso ter tempo para levá-la adiante e concluí-la, de modo a não sofrer alguma ruptura. A ausência do tempo de convívio leva a uma rarefação também do tempo de enfrentamento. Eu uso a palavra enfrentamento sem nenhum tipo de pudor. Porque toda relação de educação tem dentro dela um enfrentamento.

O senhor fala do medo dos pais em confrontar os filhos, de discipliná-los e entristecê-los. Há uma geração de pais com medo de exercer autoridade?

É uma geração que inverteu a relação. Afinal, quando tenho responsabilidade sobre alguém, tenho sempre de lembrar que ela está sob a minha ordenação, está subordinada a mim. Isso não significa que ela seja submissa ou inferior, mas que, do ponto de vista familiar ou legal, tenho responsabilidade por aquele cuidado. A sensação é que os pais se sentem responsáveis para que o filho seja feliz naquela circunstância imediata. É uma felicidade que não é construída e projetada para um aproveitamento mais adiante, é apenas imediata. Há um grande número de pais e mães que enfraqueceram a sua autoridade.

A preocupação excessiva de deixar as crianças em situações prazerosas e a dificuldade de imposição de limites as prejudica?

É uma ilusão imaginar que cabe aos adultos fazer com que crianças e jovens estejam o tempo todo se divertindo. Essa perspectiva hedonista, de uma energia movida apenas pela busca contínua do prazer, é muito danosa porque deforma o que temos de formar nas crianças. Uma grande parte dos jovens tem dificuldade de lidar com a recusa dos desejos. Uma parte dos filhos hoje é criada por pais que assimilam a ideia de que os desejos são direitos e, portanto, é preciso corresponder, outorgá-los. Essa condição, em que se procura o tempo todo dar conta dessas necessidades, enfraquece a nova geração.

Há uma busca muito grande dos pais hoje para oferecer aos filhos o maior número de atividades para que se destaquem. Temos hoje crianças muito estimuladas, mas pouco motivadas?

A motivação parte de dentro e o estímulo vem de fora. Pais precisam ser capazes de estimular a motivação na criança. Esse excessivo agendamento da vida de crianças e jovens, que os deixam quase sem tempo livre, tem uma perspectiva muito mais de preparação para um mundo de combate do que para uma formação densa de valores. Aliás, uma parcela dos adultos usa, em relação aos seus filhos, uma linguagem bélica: “Tenho de preparar meu filho para o combate”, “para a luta da vida”, “para a competição”. Como se a vida fosse uma corrida de 100 meros rasos com barreiras, em que você dispara e cai quase desmaiado no final. Não, a vida é mais como uma maratona. E temos de formar crianças e jovens para essa percepção: a maratona exige situações em que você economiza fôlego, acelera, recua.

Sempre é possível restabelecer uma boa relação com os filhos?

Claro. O pai que diz não ter alternativa assume a falência da capacidade de ação. Quem tem responsabilidade sobre alguém não pode desistir e, afinal, quem ama não desiste. Há pais que estão criando crianças soberanas e não autônomas. Também esquecem que a família não é uma democracia – um conceito político que se aplica a um conjunto de cidadãos com direitos iguais. Uma família pode ser uma estrutura participativa, mas não democrática. Pais e filhos têm os mesmos direitos no que diz respeito à dignidade humana, mas é preciso exercer autoridade. Dar a mesma autoridade à criança é uma responsabilidade que ela não pode carregar.

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